O que eu aprendi com o meu convite de casamento?

O que eu aprendi com o meu convite de casamento?



Eu estou noiva e quase finalizando o meu convite de casamento. Acontece que o processo não foi como eu imaginei e eu preciso desabafar, porque eu percebi que...



Eu preciso ser mais exigente com a escolha dos meus fornecedores.

Não que eu não seja. Mas eu tenho essa coisa chamada pouca experiência, misturada com inocência, misturada com achar que tudo vai dar certo e que todos vão se envolver no processo tanto quanto eu. A verdade é que eu não vou entregar um resultado ótimo se eu não tiver fornecedores ótimos. Acontece que eu percebi que o conceito de “ótimo” não é bem o que eu sempre acreditei que fosse. Um fornecedor pode ser ótimo para uma outra empresa, mas não para a minha. Porque talvez ele não me atenda do jeito que eu gosto de ser atendida ou talvez eu não produza o design que ele acha que combina com o produto dele. 


Então uma descoberta muito grande foi essa: eu posso ter ouvido mil recomendações sobre um fornecedor e ele parecer ótimo, mas não combinar comigo e com o meu trabalho. Isso não faz dele um fornecedor ruim, só não é o fornecedor ideal para mim. Como eu posso não ser a designer ideal para ele ou para um casal.


No mercado de casamentos, principalmente, sinto que isso tem um peso muito grande. Estamos falando de participar de um dos dias mais felizes na vida de um casal. Se não estivermos todos muito alinhados e confiantes uns com os outros, qual o ponto?



Eu preciso testar tudo. Uma, duas, dez vezes se for preciso.

Só assim eu vou descobrir quem são os meus fornecedores ideais. Gaste o tempo que for, testar vai sempre me economizar tempo no futuro. Testar um fornecedor, testar um produto, testar a mistura dos dois, testar aquela outra opção, testar aquela outra referência, testar até eu me apaixonar — e aí sim, replicar no restante da papelaria.


Testar vai me poupar da frustração. Vai aumentar a minha visão. Vai me fazer aprender e crescer. Testar vai me fazer ter o controle do processo e do resultado. Eu só vou conseguir chegar onde eu quero se eu testar. Eu só vou conseguir mostrar pros noivos onde vamos chegar se eu testar. Não tem essa de “pela foto parece que é o que eu quero” ou “pode ser mais ou menos aquela cor”. Sei que às vezes a gente quer acreditar naquele produto, a gente quer confiar naquela pessoa, mas isso não pode nos tirar do caminho. E o caminho para o resultado ideal precisa passar pelo teste.



Eu preciso estar em contato direto com cada um dos fornecedores.

Assim como os noivos estão comigo. É aqui que nasce não só a confiança, mas o aprendizado. Porque se eu testar com um fornecedor e não gostar do resultado, ele pode me explicar como eu faço pra chegar onde eu quero. Ninguém melhor pra entender de um papel do que os produtores de papel, ou de caligrafia do que a própria calígrafa. São essas pessoas que vão me explicar, também, qual o limite do material e qual o limite dela própria. Talvez eu não goste de uma caligrafia por conta da letra, mas se eu não entrar em contato direto com a calígrafa nunca vou entender que, na verdade, o problema poderia ser o papel, que dificulta a escrita, e não a letra dela. Sabe? Isso poderia me levar a perceber que, no fim, o nome do convidado naquele papel ficaria melhor impresso. Então eu seguiria pro teste de impressão e conversaria com a gráfica sobre as possibilidades e limites desse serviço.



Eu preciso aprender a desapegar.

Calma, se você é uma noiva que pensa em me contratar, eu te garanto: eu não vou desapegar do seu convite em momento algum. Pode perguntar pras minhas noivinhas. Quando há um cliente envolvido, acho que essas questões de teste e de fornecedores flui mais naturalmente porque eu tenho que lidar com as limitações dos clientes e eu não arriscaria cruzá-las em momento algum. Por outro lado, quando apenas eu estou envolvida, eu posso me perder nas emoções e achar que, hm, talvez dê pra cruzar um pouquinho só esse limite aqui. Mas como eu poderia ter certeza? 


Como uma noiva em péssima consciência, preocupada com o timing do convite, com o que os convidados queridos dela vão achar, com o que os clientes vão achar quando isso for pro portfólio, com o quanto isso vai custar, com o quanto eu poderia aproveitar essa oportunidade para descobrir novos fornecedores pras minhas futuras noivas queridas; como uma pessoa dessas pode tomar boas decisões? Eu te digo: não pode.


Mas, se eu tomei, eu vou ter que aprender a desapegar em algum momento. Talvez eu esteja tentando alcançar uma perfeição inalcançável, talvez eu esteja sendo perfeccionista demais, talvez as pessoas vão achar maravilhoso, talvez vai ser o convite favorito das minhas clientes. Ou talvez vai ficar uma droga mesmo. Eu escrevo isso com o maior nó no coração, mas pode ser. Pode ser que fique uma maldita merda e eu tenha vontade de morrer toda vez que olhar pro meu tão sonhado convite que não ficou como eu queria. E aí? O que pode acontecer de pior? Minha família vai pensar que eu escolhi a profissão errada, que “coitada da menina, não conseguiu fazer direito nem o próprio convite, imagina de outras noivas”, alguém vai dizer que ficou “rústico” tentando aliviar a situação, meu noivo vai fingir que gostou pra eu não surtar mais uma vez, talvez alguém ache que eu não me dediquei e talvez alguém pense que nunca viu um convite tão feio. Em relação ao meu trabalho, talvez eu não consiga vender nunca esse modelo de convite, talvez as noivas prefiram qualquer coisa além disso, talvez esse seja o convite que ajude elas a perceberem o que não querem, talvez uma assessora ache que eu não estou pronta pra essa profissão ou talvez o fotógrafo do meu casamento fique até sem jeito de fotografar essa aberração da papelaria de casamento. 


Bem, em relação à ser julgada pela minha família e amigos, seria uma pena, porque eu nunca me dediquei tanto à algo como esse convite. Eu fiz meu máximo para transparecer esse amor; talvez eu tenha falhado, mas eu tentei. Em relação à profissão, talvez pensem que eu não sou capaz, mas, bem, eu posso fazer um convite novo. O próximo pode ser meu melhor convite, e depois o outro e o outro e logo ninguém vai lembrar do convite horrível que eu fiz pra mim mesma. Só eu. A menos que eu medite bastante e aprenda a desapegar. 


Acho melhor eu começar isso agora.



Bom dia,













p.s. — esse texto foi escrito no dia 20 de março de 2020, após eu ter recebido todas as peças finais — envelope, convite, fita e lacre de cera — para montagem do meu convite. Algumas delas não ficaram como eu imaginei, mas não tinha mais volta. Então eu chorei, respirei fundo e escrevi esse texto pontuando onde foi que eu errei, para que eu possa melhorar da próxima vez. A continuação desse episódio está nesse post aqui: o que eu senti com o meu convite de casamento?

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